Entrevista com os profs. Plinio Martins Filho e Marisa Deaecto

Entrevista realizada pela Superintendência de Comunicação Social (SCS-USP) com os profs. Plinio Martins Filho e Marisa Deaecto. Colaborou Pedro Bolle e Jorge Vasconcellos.

Revista Espaço Aberto

Entrevista concedida pelo Prof. Dr. Paulo Franchetti à Revista Espaço Aberto, no prelo:

1.Qual a importância, para a Universidade e para o mercado de editoras universitárias, de possuir uma editora consolidada como a Edusp?
É difícil imaginar, ao menos no Brasil, uma universidade de primeira linha sem uma editora de primeira linha. Nosso país carece de boas traduções de textos fundamentais nas várias áreas do conhecimento e o ensino e a pesquisa de alto nível aqui produzidos têm no livro universitário um firme apoio e um poderoso aliado. Portanto, não temo errar ao dizer que a construção da Edusp está entre as grandes realizações da Universidade de São Paulo.
Além disso, é preciso registrar que a Editora da Universidade de São Paulo tem tido um papel formativo relevante no espaço editorial mais amplo. Sua importância, assim, vai muito além de seu impressionante catálogo de obras excelentes. Tão notável quanto ele é o seu papel seminal no aumento do padrão técnico do livro brasileiro.
Haveria ainda que destacar as ações que a Edusp desenvolve para difusão do livro universitário, seja por meio da criação e estímulo a feiras destinadas a vendas diretas para estudantes, seja por meio da participação sistemática em eventos nacionais e internacionais.
Por fim, por esse conjunto de razões e no que diz respeito especificamente às editoras universitárias, creio que não exagero ao afirmar que seu exemplo foi sempre estimulante e o modelo editorial que ali se construiu tem servido de baliza e de farol para a edição acadêmica em nosso país.

2. Quais são os próximos desafios que as editoras universitárias encontrarão no mercado?
Acredito que um dos desafios é conseguir encontrar uma boa forma de lidar com duas exigências: a do livro eletrônico e a do livro sob demanda. Em alguns meios, pela pressão do mercado e da globalização, o livro eletrônico se impõe como necessidade. Bem como o livro sob demanda, em forma original ou composto pela seleção de capítulos de livros, produzido de acordo com os interesses da bibliografia das várias disciplinas acadêmicas. Os livros universitários têm venda restrita, porém contínua – e muitas vezes exigem grande investimento em tradução, adaptação e produção cuidada. Como equacionar a natureza do livro universitário com essas demandas será, sem dúvida, uma questão relevante nos próximos anos.

3. Por que um evento como o simpósio “Livros e Universidades” pode auxiliar no futuro das editoras universitárias e do livro em si nas faculdades?
Esse simpósio terá, por certo, grande importância e muitas consequências, não apenas por proceder ao mapeamento dos vários modelos de editora universitária existentes no Brasil e no mundo, mas também por produzir material reflexivo de grande valia para a definição de políticas públicas para o livro acadêmico. Lamentavelmente, apesar da pujante e muito qualificada produção das editoras acadêmicas brasileiras, a observação permite concluir que muitos dirigentes universitários não têm uma ideia correta de quais sejam o papel e a relevância científica da editora universitária na vida intelectual do país. Isso responde pela flutuação constante do gabarito, catálogo e expressão acadêmica de várias editoras ligadas a universidades públicas e privadas. Usualmente, os congressos dedicados ao livro universitário no Brasil se ressentem de duas deficiências: o provincianismo da discussão e a falta de propostas de ação, terminando por se constituírem apenas em espaços por assim dizer catárticos, dominados pela repetição inócua de queixas e lamentações várias. Este simpósio, como se pode ver pelo programa e pelos participantes, vai muito além disso e procura fazer não só diagnósticos, mas ainda trazer subsídios intelectuais para aprimorar o livro universitário brasileiro.

4. O que o senhor vê como avanço na Editora da Unicamp, desde 2002? E quais são os planos futuros para ela?
Creio que desde 2002, seguindo o exemplo e o modelo da Edusp, a Editora da Unicamp pôde construir ou reconstruir um catálogo de primeira linha. Se continuar à frente dela por mais algum tempo, o que realmente me interessa, além de manter o padrão e o espaço conquistados, é desenvolver a recém-criada Liga de Editoras Universitárias (a LEU – da qual participam, além da Editora da Unicamp, as editoras da USP, da UFSC, da UFMG, da Unifesp e da UFPA), que é uma associação dedicada exclusivamente à promoção e ao aprimoramento técnico do livro universitário brasileiro.

Rádio USP

Acesse o link abaixo e ouça a edição de 27 de setembro de 2012 do Programa Palavra do Reitor,veiculado pela Rádio USP, no qual o reitor João Grandino Rodas aborda os 50 Anos da Edusp e a realização do Simpósio Internacional Livros e Universidades, a ser realizado entre 5 e 8 de novembro.

http://www.usp.br/imprensa/?p=25194

Contar e Aprender

A fala fluente de Marisa Midori Deaecto aplaca qualquer ansiedade diante de temáticas complexas e da grande diversidade de assuntos que o Simpósio Internacional Livros e Universidades vai mostrar nos encontros programados. Mesmo que declaradamente otimista com a realização do Simpósio, “pelo fato de termos muito a contar, assim como muito a aprender também”, Marisa deixa claro que a administração da montagem das mesas do evento “não foi um trabalho simples, não”.
Essa montagem iniciou-se em dezembro de 2011 e vem acontecendo progressivamente. “É muito difícil compor as mesas porque são pessoas vindas de diferentes continentes, por exemplo, da Europa e daqui do continente americano, com interesses os mais diversos, línguas diferentes, experiências diferenciadas, reunindo todas essas pessoas com nossos intelectuais brasileiros; isso também foi uma preocupação, ou seja, criar um fórum internacional no qual os brasileiros também se colocam, já que são pessoas atuantes no mundo do livro, portanto, essa composição não foi nada simples”, explica a autora de O Império dos Livros.

Nomes a mancheias

A professora Marisa Midori, cujo trabalho no campo dos estudos do livro e da edição vem sendo bastante reconhecido, mostrou-se muito satisfeita em ter no Simpósio Internacional Livros e Universidades especialistas de ponta oriundos das mais diversas latitudes.
Para começar a mencioná-los, a presença no dia 6 de novembro de André Schiffrin, da The New Press, de Nova York. “Ele é de origem francesa e filho de Jacques Schiffran, que marcou época como coordenador da famosa coleção Pléyade, publicada pela Gallimard”, explica Midori. Schiffran vai abordar o papel do editor na atualidade diante do poder econômico dos grandes conglomerados. “Sob o ponto de vista de André, o capital se sobrepõe ao valor humano, ao valor do autor e da literatura que se faz.”
Outros estudiosos estrangeiros confirmados a participar do Simpósio Internacional são Edoardo Barbieri (Università Cattolica Del Sacro Cuore), Denis Rodrigues (Presses Universitaires de Rennes), Jean-Yves Mollier (Université de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines), Matthias Middell (Universität Leipzig), Marco Santoro (Sapienza Università di Roma), John Donatich (Yale University Press), Fréderic Barbier (École Normale Supérieure/CNRS) e István Monók (Universidade de Széged/Academia Húngara de Letras), entre vários outros convidados.
No grupo dos especialistas brasileiros, são destaques o diretor-presidente da Edusp, Plinio Martins Filho, o diretor da Editora da Unicamp, Paulo Franchetti, o diretor da Biblioteca Mindlin, Pedro Puntoni, o professor Ivan Teixeira, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e o diretor da Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, Wander Mello Miranda, entre outros.

O Livro Universitário e suas Circunstâncias

A curadora do Simpósio Internacional Livros e Universidades, profa. Marisa Midori Deaecto, historiadora, doutora em História Econômica, atualmente docente do curso de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, pretende que este encontro, que representa o ponto máximo das comemorações dos 50 Anos da Editora da Universidade de São Paulo, seja “um fórum aberto para o debate, reunindo todos os profissionais relacionados ao livro, independentemente de sua atuação no ambiente dos livros acadêmicos”.
Autora de obras como Comércio e Vida Urbana na Cidade de São Paulo (1889-1930) e O Império dos Livros: Instituições e Práticas de Leitura na São Paulo Oitocentista (publicado pela Edusp em 2011 e agraciado com o Prêmio Sérgio Buarque de Holanda, da Fundação Biblioteca Nacional), a especialista em história do livro e da edição afirma que o evento sob sua direção “é muito mais amplo e não se atém a pensar as questões circunscritas à produção do livro universitário, embora seja esse o ponto de partida, mas não o de chegada”.
Para Marisa Midori, a atividade editorial universitária no Brasil é muito significativa, reconhecível claramente no conjunto do mercado de livros nacional, e que, por isso, o interesse nos encontros promovidos pelo Simpósio Internacional Livros e Universidades deve atingir um público amplo, de leitores e profissionais que mantêm relação estreita com os livros.

Dois eixos

Após a definição de que as comemorações dos 50 Anos da Edusp não deveriam tornar-se restritas a festas passageiras, mas sim, de outro modo, servir como estímulo às reflexões mais consequentes a respeito do livro, dois eixos foram pensados para a realização do evento. “O primeiro, que é histórico, aproxima editores, historiadores, sociólogos, enfim, os pensadores do livro, além do grupo dos formadores, sempre muito pouco lembrado, que no Simpósio estará representado por professores das escolas de editoração mais importantes do mundo”, avalia a professora da ECA.
O outro eixo observa meticulosamente as principais questões deste momento, de nosso tempo e de suas circunstâncias. “É preciso prestar muita atenção ao papel representado em nossos dias pelas editoras e pelos editores de livros acadêmicos diante de mudanças importantes por que passa a economia do livro, com a atuação de grandes conglomerados perpassados pelos grandes capitais, dos monopólios, e até mesmo no perfil dos editores, que às vezes atuam mais como gerentes ou gestores do que como intelectuais, um papel que sempre lhes pertenceu na tradição da produção editorial”, reflete Midori.